A Consciência Negra e a Mente de Cristo

Na semana da 15º celebração oficial do Dia da Consciência Negra, parece ser de conhecimento comum, tanto a realidade dos avanços na superação do racismo quanto a enormidade da tarefa ainda posta. Medidas de reforma social como a política de cotas universitárias estabelecida em 2012 obtiveram sucesso mais do que psicológico com a ingressão de milhares de jovens negros na universidade e sua progressiva inserção competitiva no sistema de produção do conhecimento. O aumento da pressão pública contra a linguagem e o comportamento racista e a valorização da cultura afro-brasileira ampliaram os espaços de reconhecimento do negro e de sua experiência de exclusão e expuseram com clareza excepcional a realidade do racismo como atitude imoral e antissocial.

O tamanho do desafio

Mas os indicadores sociais seguem extremamente desfavoráveis para os negros. Somos mais de 75% dos pobres; índices de analfabetismo e anos de estudo são proporcionalmente menores para a população negra, que também sofre com taxas de desemprego maiores e salários inferiores. Mas entre os escândalos, o maior deles é certamente o da violência: o número de homicídios por arma de fogo contra negros aumentou quase 50% desde 2003, mesmo enquanto ele diminuía em quase 30% entre brancos, e os homicídios de negros e pardos giram em torno de vezes mais do que os de brancos em todos os anos.

Esses exemplos de indicadores confirmam a herança de desigualdade setorizada e sistemicamente estabelecida de tão difícil enfrentamento. E em resposta, ouvimos o crescente clamor pelo investimento em políticas públicas contra o racismo e pela garantia de oportunidades para negros jovens.

Esse clamor é justo é racional: é função do Estado promover a justiça pública, e isso significa, também, a promoção da equidade. A promoção da equidade envolve ajustes institucionais para que pessoas em desvantagem social tenham sua fragilidade compensada, como se faz no caso das cotas; para que tenham atenção jurídica especial, contra os casos de assédio e racismo; para que possam ter seus méritos reconhecidos em igualdade de condições no que se refere a concursos e salários.

Mas sabemos, pela experiência nas lutas por direitos civis em lugares diversos como os EUA, a África do Sul e certamente no Brasil, que tais iniciativas são insuficientes para produzir uma cura profunda. Não apenas porque o racismo é um crime e uma imoralidade difícil de extirpar, mas porque suas vítimas, não sendo necessariamente melhores seres humanos que seus algozes, não serão capazes de, perdoar, transcender o mal e livrar-se do ressentimento sem recursos espirituais excepcionais. Assim, na luta contra o racismo, vem sendo amplamente adotada a ambígua estratégia da produção de uma “consciência de identidade negra” com a finalidade de adensar e aguçar o conflito social, na esperança de que a luta por reconhecimento pelo grupo excluído conduza à subversão dos opressores, à destruição de seu discurso discriminatório e assim à paz social.

A periculosidade dessa estratégia já se mostrou, por exemplo, após a derrota na primeira Grande Guerra, quando os alemães aceitaram o discurso fascista da identidade nacional baseada na raça ariana (uma ficção) e, seguindo essa “fé romântica”, buscaram sua pureza biológica, cultural e espiritual, a unidade “do sangue e da terra”. Mas ao fixar-se na identidade nacional, perderam o sentido cosmopolita, o universalismo que o Ocidente aprendeu do apóstolo Paulo, e logo entraram em Guerra contra outras culturas e nações, dentro e fora de seu território. Também o regime do Apartheid teve suas raízes na teoria do desenvolvimento de culturas independentes, com o separatismo Africâner sendo inicialmente confirmado por separatismos tribais negros.

O fruto demoníaco dessa balcanização da natureza humana, dessa retribalização das relações sociais, mostra-se nítido agora na reação global contra a “política da identidade” ou “identity politics”, com a terrível reemergência de discursos de supremacia branca e de pureza nacional, cuja lógica e estratégias de ação são, ironicamente, similares às de seus oponentes. O retorno fascista foi alimentado não por mero pluralismo, mas por décadas de políticas sociais focalizadas na constituição de identidades particulares às expensas do corpo social e dos valores cosmopolitas: as novas mentalidades microfascistas. Nos Estados Unidos - berço de diversos experimentos das políticas de reconhecimento - cristaliza-se o legado do acirramento dos conflitos entre negros e brancos, homens e mulheres, religiosos e secularistas.

No Brasil, políticas de inclusão como a das cotas, claramente definidas pelo princípio da equidade, mostram sucesso mensurável e significativo na melhoria na inserção do negro; mas políticas de identidade-como-resistência, embora ajudem a fornecer recursos de afirmação emocional necessários para a resiliência e a superação da discriminação, deixam intocado, quando não ampliado, o depósito do ressentimento social. O subproduto de emoções políticas gerado por essa estratégia não é claramente benigno.

Dado que tanto o fascismo quanto a política de identidade têm raízes comuns no Romantismo do século 19 e se mostram historicamente geradoras de graves tensões sociais, é mister encontrar um ponto de equilíbrio. Mas tal ponto de equilíbrio deve reunir equidade e cosmopolitismo.

A resposta da fé cristã

A fé cristã tem uma resposta sobre como resolver o problema da injustiça e o problema do conflito e separação: a resposta se encontra no sangue da Cruz de Cristo, que não apenas expiou a injustiça como também “de ambos os povos – judeus e gentios – fez um”. E uma vez que todos são um, não há mais “estrangeiros”, pois todos são concidadãos; “não há mais grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou homem livre, mas, sim, Cristo, que é tudo em todos”. Em Cristo não há negro nem branco; em Cristo há, acima da consciência branca ou da consciência negra, a mente de Cristo.

Por isso a palavra-chave na ação cristã contra o racismo e a exclusão sistêmica do negro não pode ser a alimentação de uma consciência negra reativa, de um espírito de pureza racial e cultural que leve ao policiamento das roupas, da arte, da linguagem e das associações de negros e de brancos. Pois o que não queremos que os brancos façam, não podemos nós mesmos praticarmos.

Confiando em Cristo, buscamos, como pregava Martin Luther King, o sonho no qual a cor da pele não importe mais, e na qual – diríamos hoje – brancos façam “coisas de pretos”, e pretos façam “coisas de brancos”! Ora, nessa situação a negritude ou a branquitude serão acidentais e não essenciais, pois essencial será a nossa humanidade comum.

Como incluir o negro nas igrejas locais?

De que modo o cristão comum pode lutar pela plena inclusão do negro? Desde as igrejas locais isso pode ser aprendido e ensaiado, combatendo-se diretamente o racismo na disciplina eclesiástica (sem assumir que o mais preto é sempre o culpado), na eleição de líderes (reconhecendo os méritos dos irmãos negros), na lembrança e confissão das injustiças históricas; no apoio emocional e pastoral especial a irmãos feridos pelo racismo em suas famílias, trabalho ou igrejas (por demais comum!), combatendo-se de púlpito a prática de tantos pais de ainda dificultar casamentos de seus filhos com pessoas mais pretas do que eles... e num sem-número de pequenas situações em que as metástases do racismo teimam em se manifestar.

Combater, sim; mas o combate do pecado pressupõe sempre a reconciliação. É preciso que os negros perdoem os brancos, e os brancos confessem seus pecados; mas para tanto ambos devem crer que em Cristo não há mais brancos nem negros.

E então saberemos o que fazer para além das paredes das igrejas! Com a sabedoria de não racializar as relações e não alimentar o passivo político-emocional do ressentimento, devemos promover a equidade e reunir as pessoas.

A violência contra os negros

Mas entre todas as urgências extraeclesiásticas, uma se eleva: é preciso lidar com a violência. A violência que não é apenas contra o pobre e o negro, mas que é também do pobre e do negro contra o pobre e contra o negro. Certamente essa violência não será mitigada com o mero aumento do estado policial e da repressão ao crime; mas certamente não o será com a mera redução do aparato policial ou muito menos com a maior conscientização e orgulho identitário dos negros – como ficou evidente no brutal aumento da violência entre os pobres durante os anos progressistas, desde 2003. Ademais, qual povo tirano não foi também orgulhoso e cheio de consciência cultural?

Segundo as Escrituras a autoridade pública deve punir a injustiça; não há como contornar a injunção bíblica. O Estado não reconcilia; mas a igreja tem a mensagem da reconciliação. É a momentosa tarefa da igreja cristã brasileira assumir a tarefa reconciliatória e atuar politicamente para que o Estado não combata a injustiça de forma injusta, nem adote discursos fascistas à direita ou microfascistas à esquerda; a tarefa de esfriar suas paixões ideológicas e buscar a audição de soluções eficientes para reduzir as taxas de homicídio de jovens pobres – a maioria deles negros. Pois talvez partes da resposta estejam em todos os lados do debate cívico; mas que pode transcender os polos da cidade, senão aqueles cuja pátria está nos céus?

Por isso esperamos Nele, que a Mente de Cristo nos ajude a transcender as consciências particulares e viver uma verdadeira reconciliação nacional.

Guilherme de Carvalho é teólogo, mestre em Ciências da Religião e diretor de L’Abri Fellowship Brasil. Pastor da Igreja Esperança em Belo Horizonte e presidente da Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares (filiada à Aliança), é também organizador e autor de Cosmovisão Cristã e Transformação e membro fundador da Associação Brasileira Cristãos na Ciência (ABC2).


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