O Lugar da Mulher na Reforma e nas Igrejas Reformadas

Catarina Maria Costa dos Santos1
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1 - INTRODUÇÃO:
As reformas religiosas do século XVI marcaram a História da Igreja Cristã. O catolicismo perdeu sua hegemonia. No Ocidente, as ideias de Martinho Lutero se difundiram dentro e fora da Europa. Inaugurava-se uma nova era do cristianismo. A partir deste cenário, qual foi o lugar da mulher? Quais foram os papéis que elas desempenharam?
 
Os homens reformados, filhos da transição religiosa, conceberam que por natureza tanto em inteligência quanto em força as mulheres eram inferiores ao homem e reiteraram nos seus escritos antigos preceitos sobre o papel da mulher na família, na igreja e na vida pública. Quando eles instituíram as novas organizações eclesiásticas excluíram as mulheres da administração eclesiástica e silenciaram-se quanto a participação daquelas que lhes deram suporte ao longo do processo das reformas religiosas. No ano em que se comemora os 500 anos da Reforma Protestante, é justo rememorar a participação das mulheres neste movimento e avaliar os avanços que o movimento reformador trouxe para elas.
      
A geopolítica da Europa Ocidental em 1517 alimentava-se dos flertes entre o clero e os reis católicos. E as mulheres cristãs, herdeiras dos reinos católicos e protestantes, projetavam-se tão fortes quanto seus predecessores, tendo pelo exercício de funções de governo, seus nomes destacados nas cronologias dinásticas. Esta tiveram merecidamente, o testemunho biográfico legado para a posteridade. E as, sem o mesmo status, mas muito ativas nos processos de transformações ocorridas no século XIV foram esquecidas? Por que não trazer à memória e conhecer outros sujeitos que, assumindo os princípios inaugurados nos renascimentos culturais, se colocaram na condição de intérpretes da nova ordem religiosa? Por exemplo, as mulheres que participaram dos movimentos liderados por Lutero, Zwínglio, Calvino, Knox, e Muntzer. Neste sentido, ao comemorar os 500 anos da reforma protestante, a igreja cristã tem o dever de proporcionar aos seguidores dos ideais luteranos, calvinistas e arminianos a reflexão sobre qual teria sido o lugar da mulher na Reforma e nas Igrejas Reformadas.


2 - O silêncio historiográfico em relação às mulheres:
O silêncio na historiografia quando se trata das mulheres não é exclusivo da história da Igreja. A escrita da História foi durante séculos reduto dos homens e não se esperava que eles fizessem juz à memória das mulheres em seus escritos. A tradição católica, reprodutora da visão androcêntrica e patriarcal, foi pouco questionada entre os reformados. Porém, como assegurar a liberdade de interpretação das Escrituras e a crença do sacerdócio de todo crente às mulheres sem alterar o status quo da sociedade patriarcal e por conseguinte das igrejas reformadas? Como equacionar o talento e a força das mulheres diante de uma ordem institucional? Por que não radicalizar as reformas? Lutero lidou com reservas a ideia de uma reforma radical. Thomas Muntzer e os camponeses que optaram pela salvação dos altos impostos e da superexploração feudal foram duramente reprimidos como cães raivosos. A radicalização da reforma na Inglaterra, teve efeito  duplo sobre as mulheres. Na Europa do século XVI, os registros judiciários, que envolvem mulheres condenadas à fogueira pelas práticas de feitiçaria e magia negra em países como a Inglaterra e França se constituíram em grande parte, nos indícios de o quanto o comportamento diferente das mulheres permaneceu sob suspeita das autoridades vigentes. Nos cantões protestantes a condenação de mulheres à fogueira não foi contestado. Martinho Lutero, por exemplo, considerou o ato como sendo necessário para salvar a alma de tais praticantes das artes do maligno. Nas colônias americanas, algumas praticas puritanas e dos quackers atualizaram o medo medieval da punição divina. Ou seja, ao mesmo tempo em que os reformados abriram portas para a livre interpretação da Bíblia, com o acesso à leitura, colocaram trancas para controlar os comportamentos e as mentes femininas. As mulheres que puderam por si mesmas, afastarem-se dos papéis considerados naturalmente femininos, puseram suas próprias vidas sob suspeição. O incentivo à leitura das Escrituras, pareceu portanto, apenas um recurso para conduzi-las à obediência e a observação dos papéis naturalmente destinados à mulher. No entanto, a leitura legou às mulheres o poder da escrita e da possibilidade de participação efetiva da política. Este grande legado da Reforma teve sua expressão, por exemplo, no século XVII, quando Catherine Chidley encontrou na Bíblia do século XVII, a permissão para lutar pelos direitos de igualdade e de liberdade civis. Catherine era partidária dos Levelleres2 e após o famoso debate com Thomas Edward, escreveu com o apoio de outras mulheres ao Parlamento Inglês uma petição requerendo o voto universal. No período que se seguiu à Reforma, a educação das meninas passava pelas classes bíblicas onde elas eram ensinadas a observar os evangelhos e as Escrituras como regra de fé e prática. Em casa, os maridos huguenotes davam aulas para as esposas. A hipótese de que tais ensinamentos libertaram as mulheres da visão tradicional dos papéis sociais de gênero e de classe não é rara, particularmente na Inglaterra do século XVII.
Na esfera pública da Igreja,  porém, a institucionalização da nova ordem religiosa, os lugares definidos para as mulheres foram reiterados: casa, casamento e igreja. As meninas eram preparadas para o casamento ainda muito jovens e as mães as advertiam a obedecer a seus maridos. A vasta maioria das mulheres como suas predecessoras esperavam cumprir seu destino: casar, ter filhos e servir o marido. Esta visão ensinada nas classes de meninas foi evidenciada na advertência de Elizabeth de Braunschweig, uma mulher da nobreza e protestante, que na noite do casamento de sua filha, lha advertiu a obedecer ao marido. Embora o ensino bíblico tenha assumido um caráter mantenedor das tradições familiares patriarcais, a classe para as meninas foi uma mudança na nova organização eclesiástica. O valor da mulher, demonstrando na competência para o aprendizado de habilidades intelectuais: a leitura e a escrita, foi amplamente utilizado para posteriores conquistas. Ao criar leitoras, a Reforma possibilitou a mulher se colocar individualmente como intérprete de um novo tempo: o tempo das reformas.


4 - A presença das mulheres reformadas na história dos países reformados:
Anna Maria Van Schurman (1607-1678), é um exemplo deste tipo de mulher. Protestante, nascida  alemã, no século XVII, recebeu da família uma educação clássica e primorosa. Depois da morte das tias, que ela cuidou durante vinte anos, ela se tornou seguidora e uma das principais divulgadora dos ensinamentos do Labadismo3. Em 1638, escreveu o tratado "Whether the study of letters is  fitting to a christian woman?”, obra publicada nos Países Baixos, França e Inglaterra e fez nascer nas mentes de algumas mulheres questões sobre a visão tradicional do papel limitado da mulher, e apontou a partir do seu exemplo, novos rumos para mulheres que aprenderam  a ler e a escrever.    Anna Schurman acreditava que se à mulher fosse permitido ler, ela descobriria fatalmente a contradição inerente aos movimentos como o da própria Reforma, porque o conhecimento liberta. Anna Schumann, Catherine Chidley e outras mulheres concorrem para que se tenha a noção de que o lugar da mulher na reforma foi para além do lugar comum e natural até então designados. O que se pode inferir é que mulheres libertas, livres para pensar e inferir quanto a sua própria natureza, tiveram lugar na Reforma, mas perderam os lugares na Instituição, porque as instituições são lugares de poder, e o exercício do poder, em sociedades androcêntricas e patriarcais é tratado como espaços de ações dos homens. Deste modo, mesmo com ações reconhecidamente importantes na política, na literatura, na educação e ao lado dos homens reformadores, quando consolidadas as instituições religiosas reformadas, a mulher foi reconduzida à casa, à maternidade, aos cuidados do homem. Por que a maior parte das mulheres do século XVI e XVII aceitou a subordinação das instituições? Era natural, posto que era transmitida às meninas nas classes dominicais. Porém, ao aprenderem a ler e escrever, as meninas e as mulheres reformadas legaram este privilégio para a posteridade. A partir daí a situação das mulheres não seria mais a mesma. Talvez por esta causa e pela diferença nas mensagens da fé, nos séculos XVIII e XIX, nas nações protestantes, mais do que nas nações católicas os grupos que lutavam pelo direito das mulheres conheceram grande sucesso. Embora a fé tenha favorecido tais mudanças, é fato que originalmente o protestantismo mais do que o catolicismo, promoveu circunstâncias e atitudes que permitiram que as mulheres organizassem em seu próprio nome, afirmar seu lugar como iguais e sustentar suas vitórias. Neste sentido, o processo de empoderamento das mulheres tão propalado no século XXI, pode ser considerado também filho da reforma.


 
Referências Bibliográficas:
 

ANDERSON, Bonnie S. & ZINSSER, Judith P. A History of their own. Women in Europe, from prehistory to the present. Vol. 1. New York: Harper & Row Publishers. 1988. Part III, cap. 4, 5. 
BACKHOUSE, Stephen. Histoire du Christianisme: Le guide des grandes étapes. Paris: Éditions Salvator, 2014.
DAVIS, Natalie Zemon. Culturas do Povo: Sociedade e cultura no início da França Moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. (Coleção Oficinas de História).

Notas:

1 Professora de História da Educação Básica Técnica e Tecnológica (EBTT). Pertencente a Carreira do Magistério da Aeronáutica, lotada na Escola de Ensino Fundamental e Médio Tenente Rêgo Barros. Doutora em História pela Pontifícia Universidade católica de São Paulo (PUC/SP). Membro da Primeira Igreja Batista da Marambaia em Belém do Pará.

2 Os Levellers ou niveladores em português eram grupos ingleses que  reivindicavam o sufrágio universal, o direito à pequena propriedade privada, e a igualdade política. O ano de 1653 é o ano do estabelecimento da Ditadura de Oliver Cromwell. Para saber mais sobre o assunto ler do historiador Christopher Hill, o livro "O Mundo de Ponta-cabeça".

3 Seita fundada por Jean de Labadie, um jesuíta que se converteu ao protestantismo.

 

 

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