Carta Pastoral pelo Dia Nacional da Consciência Negra 2017

"...reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo." (Atos 10.34, 35)

O texto que abre essa carta pastoral é significativo para nós cristãos porque é uma verdade fundamental das Escrituras que Deus não faz acepção de pessoas, enxergando-as todas com o mesmo amor e cuidado.

No Dia Nacional da Consciência Negra 2017, que transcorreu recentemente, há que se reconhecer, entretanto, que nós cristãos também, e infelizmente, nem sempre agimos de acordo com essa verdade fundamental. Fomos cúmplices de pecados estruturais como a escravidão, o colonialismo e a segregação racial. E, tragicamente, utilizamos as Escrituras Sagradas para justificar nossa ativa participação, cumplicidade ou omissão, tornando-as partes da ideologia do racismo e seus dispositivos de discriminação e opressão.

No Brasil, pessoas negras são todas aquelas autodeclaradas pardas e pretas. De acordo com o IBGE as pessoas negras correspondem a 54% da população brasileira. Mas é visível a desigualdade entre pessoas negras e brancas se focarmos por diversos ângulos diferentes, como diversas pesquisasi atestam:

  • Dos 56 mil homicídios que ocorrem por ano no Brasil, mais da metade são entre os jovens. E dos que morrem, 77% são pessoas negras.
  • Entre pessoas brancas, 70,7% dos adolescentes de 15 a 17 anos estão no ensino médio, etapa adequada à idade, entre as pretas esse índice cai para 55,5% e entre as pardas, 55,3%.
  • Entre pessoas negras, a média de renda familiar per capita é R$753,69 entre as pretas e R$729,50, entre as pardas. Pessoas brancas têm renda média de R$ 1.334,30.
  • Enquanto a taxa de desemprego no país foi de 12% no final do quarto trimestre de 2016, ela chegou a 14,4% entre pessoas pretas e a 14,1% entre pardas. Para as brancas, a taxa foi menor, de 9,5%.
  • Em 2015, 12,8% das pessoas negras entre 18 e 24 anos chegaram ao nível superior. O número equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade, que eram 26,5% em 2015.

Nossa sociedade produz estruturas que preservam essas desigualdades e geram ainda mais violências. Pecamos ao manter essas estruturas e não sinalizamos o reino de Deus que é justiça, paz e vida. E esse pecado tem nome: RACISMO.

O racismo é um assunto espinhoso para a sociedade brasileira e se torna ainda mais árido entre os cristãos, que muitas vezes hesitam em reconhecê-lo. Em nosso país o protestantismo pouco tem feito com relação à promoção da igualdade racial, especialmente, no caráter mais institucional; dos missionários europeus e norte-americanos que aqui desembarcaram no século 19, trazendo a semente da fé evangélica, quase todos se omitiram diante da escravidão, isso quando não eram eles próprios donos de escravos.

Mas foi ainda entre pessoas negras e pobres que se desenvolveram os principais ramos do pentecostalismo, expressões de nossa fé que carregam tantos elementos da cultura afro-brasileira, embora muitas vezes sem tal reconhecimento, e talvez por isso mesmo venha sofrendo tanto preconceito, inclusive de outros segmentos do cristianismo.

Convidamos a cada cristão, organização e igreja a se arrepender de muitas vezes ter sido algoz ou negligente com o racismo e a se comprometer na luta contra esse pecado que tem excluído de várias maneiras um importante segmento da população brasileira e ceifado tantas vidas em nosso país.

Que o nosso Deus, que é amor e reconciliação, nos ajude nesse caminho de justiça.

Brasil, 23 de novembro de 2017
Aliança Cristã Evangélica Brasileira


ihttp://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-11/educacao-reforca-desigualdades-entre-brancos-e-negros-diz-estudo https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2017/02/23/desemprego-e-maior-entre-pretos-e-pardos-e-rendimento-e-menor-diz-ibge.htm?cmpid=copiaecola


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