Crise política, governabilidade e ética

por Ageu Lisboa

 

No conturbado contexto político e religioso de sua época, Jesus, abençoado por um típico místico retirante essênio e corajoso profeta, João Batista, agrupou e conviveu com discípulos tensionados na disputa de visões e influências existentes entre os vários partidos.

Não era fácil compreender e agir naquele contexto em relação aos poderes dominantes e em luta. Lá estavam os conservadores fariseus e os liberais saduceus, a elite política e sacerdotal instalada no templo. Também os herodianos, a turma que dava suporte e governabilidade aos prepostos dos dominadores romanos, aos quais Judas prestou seu tributo traindo a Jesus. Judas ousara proferir um discurso pretensamente social para Jesus, quando este fora ungido por uma mulher. Na verdade, era ladrão, se apossando de recursos do grupo apostólico e barganhou favores com os poderosos. Contrapondo-se a estes vemos os radicais nacionalistas zelotes, adeptos da luta armada e pelos quais Simão Pedro parece ter se identificado, chegando a arrancar com a espada a orelha de um soldado. Foi repreendido por Jesus que restaurou ao ferido e proferiu a máxima: “quem lança mão da espada por ela será ferido”.  Sabemos que ao fim preso, julgado e crucificado, Jesus “pagou o pato". Ainda bem, pra nós!

O Senhor que dirige a história, Ele mesmo sofreu as incoerências e jogos de poder das altas esferas palacianas e do templo. Quanto mais nós, cidadãos brasileiros comuns, não seremos confundidos diante das articulações sórdidas dos que se apegam ao poder ou os que dele querem se apossar! Há poucos íntegros e confiáveis nesta arena! Sejamos desapaixonados e não assinemos cheque em branco pra ninguém. Mas como falou o papa, a política é um âmbito legitimo e necessário para o testemunho cristão. De que modo? "Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor" (Zc 4.6).  Temos muito o que fazer como protagonistas; e para o agir ético, Jesus nos lembra do sal, da luz, da caridade, da pacificação, do amor à justiça (Mateus 5).

Relativizemos as frágeis simplificações das propostas tipo "X ou Y". Lembrando que "todos pecaram", o que se aplica a todos atores políticos, ao judiciário, mídias, movimentos sociais. Bom que "nada permanecerá oculto". Que continue vindo à luz toda a corrupção, os bastidores, o escondido, os reveladores atos falhos, os acordos inconfessáveis, as transações de favores e tudo o mais, à "esquerda" e à "direita". E que os tribunais julguem com a máxima isenção possível, no respeito à Lei.

Ninguém sabe a configuração de forças que emergirá no país, mas a sociedade atenta e a Igreja orando a Deus construirão uma transição rumo à governabilidade democrática e que estanque a hemorragia econômica. Lembrando da história dos judeus, não havendo arrependimento, que pereçam “no deserto e no exílio” os velhos e corrompidos atores; e que o Senhor suscite novos agentes políticos, compromissados com bons padrões éticos, para liderar o país.

Paz a todos.

Ageu Heringer Lisboa é psicólogo, assessor do CPPC e autor de vários livros e artigos. Este artigo foi publicado pelo autor em 19/03/2016. A Aliança o reproduz como uma contribuição à reflexão do seu público, nesses dias por que passamos.

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