Magnificat: um convite para escuta e engajamento

O Magnificat é um canto de gratidão pessoal, de honra e de louvor a Deus pelo que Ele significa e tem feito ao longo da história. Maria, uma pessoa messiânica, esperançava por um novo tempo, aguardando o dia da libertação de sua família e do seu povo. Assim, o seu cântico expressa a sua acolhida pessoal de uma promessa: Deus está em uma aliança com os que o escutam.

No contexto do Evangelho de Lucas, o Magnificat é uma canção em um mundo virado de cabeça para baixo, articulando uma visão do reino de Deus na terra, um reino que empodera o abatido e desempodera o que se exalta. Havia muitos ruídos sociais, políticos e religiosos naqueles dias; muitas vozes e barulho, os quais dispersavam sonhos e desmantelavam esperanças. Mas, foi neste contexto que Maria ouviu a mensagem de um mensageiro celestial, pedindo que se alegrasse, pois, o Senhor estava com ela.

Até aí, tudo bem, embora ela tenha se perturbado com o que poderia significar este aparecimento. Quando o anjo diz que ela daria à luz um filho, a perplexidade jorrou em forma de palavras e ela se expressou, dizendo ao mensageiro: “Como acontecerá isso, se sou virgem?” Ela tinha motivos para a sua perplexidade. Ser mulher e ser mulher virgem, porém, grávida, não casada, era um grande problema em seu tempo. Valores culturais, sociais, morais e religiosos da época jamais permitiriam essa hipótese. Ainda, sabendo que sua sociedade era de exacerbada vigilância, controle e punição, ela sabia muito bem que sofreria retaliação.

Maria era fruto deste ambiente e, certamente, sua reação foi típica de alguém que possuía os mesmos valores e que, portanto, não aceitaria que algo dessa natureza lhe acontecesse. Ela reage por causa da percepção que ela tem de si mesma. Ela não precisava do mundo exterior para temer e se punir. Assim, os ruídos interiorizados são parte de sua reação e sofrimento. Essas vozes do interior poderiam impedí-la de experimentar a esperança de uma nova realidade e nela se engajar.

Maria reage. Reage porque ela também não aceita essa hipótese. O que é anunciado é maior do que ela e sua sociedade. A esperança messiânica não se escoará do coração. Maria tira de sua fonte messiânica interior um exercício que precisamos em nossos dias, quando realidades do mundo interior e do mundo exterior atuam para dispersar nossas esperanças e nos impedir de crer que Deus é aquele que move a história. Maria faz mais do que ouvir, ela “escuta”.

No judaísmo, a escuta é mais do que ouvir. Enquanto ouvir sugere um exercício físico para captar e definir sons, escutar é um exercício interior, que procura compreensão para algum tipo de engajamento. A escuta foi o exercício da alma de Maria, um sim para o que Deus estava fazendo. Foi também uma resposta contra sentimentos e percepções interiores e exteriores que poderiam cristalizar no coração dela resistências contra o movimento redentor e reconciliador de Deus. A escuta que nos conduz ao engajamento também nos vincula uns aos outros e constrói relacionamentos.

Há pessoas que se fortalecem pelos discursos de quem fomenta violência, mas quem adota o caminho da escuta é transformado pela fonte vivificadora da existência, que é Jesus de Nazaré. Escutar é o prelúdio da paz, do amor e da esperança. Assim, adotemos o espírito de Maria, que afirmou sobre si mesma, “Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra.”

Brasil, 20 de dezembro de 2018

Aliança Cristã Evangélica Brasileira, por seu Conselho Coordenador

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