Treze de maio: a abolição ainda não chegou aos Quilombolas

Nos últimos anos, a Igreja Evangélica Brasileira tem sido encorajada a incluir em sua agenda doméstica os vários segmentos tradicionais existentes em nossa pátria, dentre eles os quilombolas, cuja realidade ainda é pouco conhecida pela grande maioria e que, invariavelmente, nos remete ao período escravocrata. Mas quem são os quilombolas hoje? Quantos são? Onde vivem? Quais são seus principais desafios?

Segundo o relatório da Aliança Evangélica Pró-Quilombolas do Brasil, “quilombolas são afrodescendentes que se organizam em comunidades próprias e mantêm sua identidade”. Trata-se de grupos étnico-raciais que se auto-reconhecem “remanescentes de quilombos”. Cabe à Fundação Cultural Palmares emitir uma certidão sobre essa autodefinição, e ao INCRA a regularização das terras. Atualmente, há 2.474 comunidades certificadas e formalmente reconhecidas pelo Estado brasileiro (FCP–fev/2015). Contudo, o número total de comunidades existentes pode chegar a cinco mil, distribuídas por quase todos os Estados do país, exceto nos Estados do Acre e Roraima e no Distrito Federal. Estimativas do Programa Brasil Quilombola de 2012 apontavam que havia 214 mil famílias e 1,17 milhão de quilombolas em todo o Brasil. Certamente, hoje esse número é bem maior. Foi principalmente a partir da Constituição Federal de 1988 que a questão quilombola ganhou base jurídica legal, saindo assim da invisibilidade e da marginalidade para entrar na agenda das políticas públicas. Com o objetivo de proporcionar acesso a essas políticas, foi criado em 2004 o Programa Brasil Quilombola. Contudo, apesar dos avanços, a efetivação dos direitos dos quilombolas continua sendo um grande desafio, principalmente no que diz respeito ao acesso à terra. Viajando pelas comunidades quilombolas do sertão paraibano pudemos constatar enormes carências, vulnerabilidade social e falta de perspectivas, realidade que, infelizmente, não é exclusiva daquele Estado. Mais de 70% das famílias quilombolas vivem em situação de extrema pobreza. De acordo com dados de março de 2015, em todo o país quase 130 mil famílias quilombolas estão cadastradas nos programas sociais do governo e recebem algum tipo de ajuda, sendo que 80% delas são beneficiárias do Programa Bolsa Família. A situação dessas comunidades é de cortar o coração! A realidade religiosa também é lamentável, com predomínio de catolicismo romano, marcado por um forte sincretismo religioso, devido à sua ancestralidade. Assim que chegamos, em janeiro passado, a uma comunidade quilombola do Piauí, um dos líderes foi logo avisando: “Não venham nos falar de Jesus, não queremos crentes aqui”. Enquanto em muitas comunidades ainda há uma grande resistência, em outras as portas (ainda) estão abertas. Não podemos postergar a evangelização dessas comunidades, ao contrário, devemos ter urgência em alcançá-las. Segundo estimativas da Aliança Evangélica Pró-Quilombolas do Brasil, 20% dessas comunidades não são alvo de qualquer ação evangelística. Algumas estão sendo alcançadas de forma restrita, ou através de ações evangelísticas descontextualizadas empregadas por pessoas despreparadas, que não percebem a necessidade de preparo missiológico. Esse tipo de evangelismo ignora os aspectos culturais, não leva em conta os costumes locais e desrespeita os códigos culturais. Como resultado, corações e, quando não, comunidades inteiras se fecham à pregação do Evangelho. Alguns atribuem ao diabo as dificuldades provocadas pela falta de preparo e sabedoria, e certamente esse é um dos mais trágicos problemas na (não) evangelização dos quilombolas. Vítimas de preconceitos decorrentes da cor da pele (são predominantemente negros) e de sua extrema pobreza e ruralidade, eles carecem conhecer o amor de Deus transmitido por obreiros bem preparados por suas igrejas e equipados para plantar igrejas nativas, preparar lideranças locais e implantar projetos de transformação social que mudem a realidade dessas pessoas em todas as dimensões de suas vidas. Assim, e só assim, estarão aptos a desfrutar de uma real abolição de todas as suas terríveis escravaturas. Como as ações de governo são lentas e insuficientes, e as da igreja evangélica, até o momento, mais ainda, a única esperança de uma mudança integral na vida dos quilombolas está numa mudança de atitude da Igreja. As comunidades cristãs locais precisam se engajar na tarefa de evangelização dos quilombolas demonstrando o amor de Deus por meio da pregação do Evangelho e de ações transformadoras que desafiem e atraiam governo e sociedade a uma grande mobilização capaz de transformar a realidade imediata e abrir vias em direção a um futuro incomparavelmente melhor. Menos do que isso é mais do que insuficiente.

Alisson Medeiros
e Sérgio Ribeiro são da Missão JUVEP, com sede em João Pessoa, PB, envolvidos com a Aliança Evangélica Pró-Quilombolas do Brasil. Sérgio é membro do Conselho Coordenador da Aliança Evangélica.

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