Percalços para Envio de Missionários Brasileiros

por Silas Tostes

A capacidade de mobilizar, treinar e enviar missionários indica que a igreja brasileira está viva e em harmonia com a vontade de Deus: a evangelização de todos os povos e nações da terra. Apesar das nossas dificuldades, podemos fazer diferença num mundo sem Deus.

Segundo o censo de 2012 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE– há 42,5 milhões de pessoas no Brasil que se declaram evangélicos. A pesquisa não apura o quão evangélica é a igreja, ou o nível de compromisso da pessoa com a comunidade a qual diz pertencer. Certamente há grupos e líderes com formação doutrinária e teológica deficiente e outros sem compromisso com a ética cristã. De fato, nem toda árvore chamada evangélica tem bons frutos. Jesus disse: “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” (Lc 6.43).

Para enviarmos missionários ao mundo sem Deus precisamos selecionar bons frutos que venham das boas árvores. Havemos de considerar a coerência do evangelho pregado e do evangelho vivido:

Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo; pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração... Vós e Deus sois testemunhas do modo por que piedosa, justa e irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros, que credes. (2Ts 2.3,4,10)

Há na igreja brasileira líderes megalomaníacos em busca de fama e grandeza. Também os artistas do entretenimento e do show disfarçado de “adoração”. Há uma indústria da ganância e da vaidade, dos testemunhos espetaculares e das conversões de conveniência. Na busca do poder, a aberração do comércio dos títulos eclesiásticos criando categorias de pessoas especiais, acima das demais. Tal aberração da igreja brasileira não deve ser exportada para o mundo sem Deus. A busca da glória humana não contribui para o serviço missionário, que só pode ser realizado com humildade e espírito de serviço:

A verdade é que nunca usamos de linguagem de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é testemunha. Também jamais andamos buscando glória de homens, nem de vós, nem de outros. 1 Ts 2.5,6.

A mercantilização de milagres e unções é outra afronta ao Mestre da Galileia que nada exigiu em troca dos muitos milagres que realizou. A venda da bênção disfarçada no discurso do “desafio da fé” ou da “oferta de sacrifício” nada mais é que comércio religioso. Tais práticas são abjetas e devem ser combatidas dentro e fora do contexto brasileiro. Que os missionários sejam enviados com autoridade espiritual para, no poder do Espírito Santo, anunciarem o evangelho que salva a alma, cura o corpo e liberta o oprimido:

A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus. 1Co 2.4,5.

O mundo sem Deus precisa entender a natureza genuína do perdão, da graça, do amor e do serviço no Evangelho – mediante o anúncio de Jesus. Não podemos substitui-lo por expectativas materiais propaladas pela teologia da Prosperidade. Havemos de enviar missionários que vivam a simplicidade do evangelho, curados da cobiça, não escravos dos bens materiais.

Porque, vos recordais, irmãos, do nosso labor e fadiga; e de como, noite e dia labutando para não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamamos o evangelho de Deus. 1Ts 2.9.

Por fim, não podemos exportar nossas antigas divisões ou as recentes disputas em torno de projetos políticos partidários. A ação missionária eficaz precisa refletir a unidade que temos em Cristo, ainda que diversa na multiplicidade de atores e concepções. Que nossas diferenças não nos tirem a unidade nos essenciais da fé tão necessária para que o mundo creia:

“Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17.21).

A igreja brasileira tem grande potencial missionário! Nossos números indicam isso. Obviamente, temos pontos fracos mencionados acima, que devem ser levados em conta na mobilização, treinamento e envio de missionários. Devemos formar melhor os nossos futuros missionários e não devemos exportar nossas fraquezas.

Cada pessoa que exerce liderança na Igreja Evangélica brasileira deve considerar: Qual a importância deste tema em minha agenda? Quais são outros pontos fracos que você tem observado e que não podemos replicar lá fora? Ao contrário, quais são os pontos positivos não abordados aqui, que nossos missionários devem levar?

Silas Tostes é presidente do Conselho Gestor da Aliança, Coordenador da equipe de pastores da Igreja do Vale da Bênção e presidente da Missão Antioquia. Está filiado a Igreja Presbiteriana de Londrina, designado para missões.

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